Meu Midpoint de Carreira, Parte III: Final

29-09-2026 – Por Gustavo Aquino · 13 min de leitura

#carreira

Esta é a Parte III (final) de uma trilogia. Leia também: Parte I · Parte II

Prólogo: Pandemic Llamas!

Em 2020, comecei o ano de uma forma bastante diferente: estava me aventurando pelas ruínas de Machu Picchu, no Peru, durante umas merecidas férias. Alguns meses antes, eu havia saído da seguradora e sido contratado por um grande hospital de São Paulo para trabalhar na área de Produtos Digitais. O maior deles era um aplicativo mobile de saúde, que fornecia dados de consultas médicas, resultados de exames, agendamentos, teleconsulta etc. A minha missão, como programador .NET, era evoluir o backend dessa aplicação, fornecendo novas features, além de melhorar diversos aspectos que haviam sido feitos e refeitos, como jornadas de login com SSO (Single Sign-On), integração de prontuários, além de uma enorme lista de dívidas técnicas e melhorias na qualidade percebida pelos pacientes e na observabilidade desse sistema.

machu picchu
Figura 1. Minhas férias em Machu Picchu.

Ao retornar de viagem, no início de fevereiro, as notícias eram preocupantes. O primeiro caso de COVID-19 foi registrado no Brasil, em São Paulo, e um mês depois a OMS (Organização Mundial da Saúde) declararia a pandemia global da doença [1].

A partir daquele momento, os países que ainda não tinham declarariam regime de lockdown, restringindo a circulação de pessoas e o funcionamento de serviços, comércios, entre outras atividades econômicas. Da mesma forma, por segurança, o meu time foi enviado imediatamente para o regime de home-office, já que trabalhávamos em uma sede com grande circulação de pessoas em risco de contaminação. O mestrado que eu havia começado alguns meses antes também se adaptou, e seguiria assim até o final, ao modelo de aulas remotas.

A essa altura eu mal tinha completado seis meses na empresa, e foi um choque para todos adaptar-se a essa nova realidade, onde quase não havia quem já tivesse a cultura do trabalho remoto, especialmente pela curiosa rotatividade que eu já havia presenciado nesses poucos meses. Explico: a maioria dos programadores dos times de Produtos Digitais eram terceirizados e simplesmente saíam (ou eram removidos) do projeto, afetando muito a qualidade e a continuidade dos projetos. Nesse momento, eu me apoiava muito nos dois Product Owners que ali estavam e que também eram internalizados, como eu, e conversávamos sobre o ânimo e a, por vezes, baixa moral da equipe.

Porém, um dos POs recebeu uma proposta de outra empresa e decidiu sair, e, conversando com ele, incentivei a decisão, que parecia ser a melhor a se fazer naquele momento. Nesse momento eu fiquei um pouco desamparado, com um time bastante instável e certas divergências quanto ao método de trabalho que estávamos realizando. Claro, a situação do lockdown não ajudava em nada, e o clima de desconfiança pairava e tomava conta de infindáveis reuniões de planejamento, refinamento, e todo o amálgama de frameworks Agile que ali se empilhavam.

Os meses se arrastavam e, na incerteza de quanto duraria o lockdown, mantinha-me firme na posição, pois era o melhor que eu tinha em mãos no momento. Mas, para a minha sorte e destino, uma grande amiga, a Vê, da primeira empresa onde trabalhamos juntos por tantos anos, estava há pouco montando um novo time de programadores em uma gigante do e-commerce à qual havia se juntado ainda em janeiro de 2020, e estava recrutando programadores Java para projetos de sistemas logísticos. Ela me convidou a participar do processo seletivo, o que eu imediatamente aceitei. Nas semanas seguintes, durante as etapas do processo, as expectativas aumentavam: primeiro para voltar a trabalhar junto com ela nessa nova empresa, e também porque, durante esse período de pandemia, as empresas de tecnologia e e-commerce viram seus multiplicadores subirem devido à explosão de demanda que passaram a ter. Como supermercados e comércios estavam fechados, muitos recorriam ao delivery para consumir e suprir suas necessidades, ao menos quem tinha essa possibilidade.

Depois de um teste técnico extremamente desafiador, ao qual me dediquei muito (e senti orgulho ao concluí-lo), que envolvia uma aplicação escalável para processamento de DNA, similar ao Voight-Kampff Test de Blade Runner, um PaaS (Platform as a Service) no Azure e um DBaaS (Database as a Service) de documentos multi-instância master-master na AWS (Amazon Web Services), e de uma entrevista técnica igualmente interessante, recebi a notícia de que eu fora aprovado. Não houve melhor momento para isso acontecer, e essa seria, até então, a maior virada da minha carreira.

arquitetura simianator
Figura 2. Arquitetura do meu teste técnico para ingresso no maior e-commerce da América Latina.

Nós não aceitamos pedras em devoluções

Era junho de 2020 quando fui contratado como Engenheiro de Software Semi-Sênior (também conhecido como Pleno) pela gigante do e-commerce, que crescia a dois dígitos, quarter a quarter, pelo aumento da demanda durante o período de lockdown, que duraria dois anos e só abrandaria após o lançamento das primeiras vacinas. Naquele momento, o time era recém-formado, então todos na minha equipe ainda estavam se adaptando à nova rotina e aos projetos.

O que posso destacar é que as habilidades que desenvolvi anos atrás em sistemas de orquestração seriam necessárias nesse momento, pois o meu primeiro projeto nessa empresa seria, novamente, criar um orquestrador, mas, dessa vez, desenvolvendo-o praticamente a partir do zero. Quer dizer, usando um runtime conhecido de orquestração open-source em BPMN (Business Process Model and Notation), construímos uma abstração para esse motor e fluxos configuráveis para que os operadores logísticos operassem regras de qualidade durante o processo de recebimento de produtos devolvidos aos armazéns pelos clientes, evitando que pedras e outros objetos indevidos fossem recebidos pela triagem.

Subindo dois níveis

Depois de estabilizar o orquestrador de devoluções, passei por outras equipes responsáveis por diferentes partes do processo de entrada de inventários nos armazéns, desenvolvendo o sistema de WMS (Warehouse Management System). Eram times relativamente pequenos, de cerca de 5 pessoas, cada uma responsável por um conjunto de funcionalidades do WMS. Vale destacar que a stack escolhida por esses times comumente usava frameworks baseados em React e Node.js para o frontend, e Spring Boot, combinando as linguagens Kotlin e Java, para o backend. Para mim foi uma grata surpresa, pois eu não imaginava que o Kotlin, construído pela JetBrains, fosse tão comum fora do ambiente de desenvolvimento mobile. Muito da sua sintaxe foi certamente inspirada em linguagens mais modernas ou que evoluíam com mais frequência (sabor C#), o que tornava o aprendizado dessa stack ainda mais interessante.

Nesse mesmo período, entre 2021 e 2022, oficializei também uma consultoria independente em arquitetura de software, oferecendo serviços de consultoria especializada e me associando a líderes técnicos para guiá-los por todo o ciclo de desenvolvimento de sistemas de alta qualidade e orientados a performance.

Voltando à rotina na empresa, vale mencionar que ela mantinha um ecossistema próprio de desenvolvimento, o IDP (Internal Developer Platform), fornecendo serviços, frameworks e ferramentas padronizadas e abstraídas de vendor para os seus milhares de times de desenvolvimento (esse número chegaria a mais de 15 mil desenvolvedores em 2024 [2]). Certamente ter à disposição tal nível de ferramentas ajudava muito a manter o foco na solução a ser desenvolvida, e menos em problemas mais mundanos, como conectar ou integrar A com B, ou fazer a linguagem funcionar com este ou aquele serviço de infraestrutura.

internal developer platform
Figura 3. Exemplo de IDP, conectando o desenvolvedor às aplicações e abstraindo-as de vendors [3].

Com os primeiros projetos de WMS entregues, alcançando os resultados esperados pelo meu time e ajudando os novatos (não apenas os da empresa, mas também de carreira) a elevar o nível técnico de todos, fui promovido a Engenheiro de Software Sênior um ano e meio após a minha contratação. No mesmo período, realizei a minha defesa de dissertação de mestrado e encerrei mais este ciclo. Minhas gratidões ao meu orientador, o singular e sensível Prof. Dr. Nelson Brissac Peixoto.

Mas uma promoção ainda mais importante estava por vir: eu me tornaria pai. Esses dois acontecimentos coexistindo, a ascensão profissional e a chegada da paternidade, tornaram aquele período um dos mais desafiadores da minha vida.

Com projetos agora mais complexos e críticos, envolvendo o trabalho de milhares de operadores logísticos em dezenas de armazéns e centenas de milhares de produtos processados diariamente pelo fluxo de entrada, a responsabilidade sobre a minha arquitetura cresceu na mesma medida, com a ajuda de excelentes programadores e líderes técnicos com quem tive a sorte de trabalhar, além da minha inquietude em elevar o nível técnico das soluções e dos demais times.

Realizei diversas apresentações sobre os mais variados temas para o meu time e outros times de desenvolvedores, como Testes de Unidade, Atualizações e Novidades do Java, Padrões de Aplicações Distribuídas, Orquestração com BPMN (um chamado para ouvir a palavra do BPMN), entre outras. No dia a dia, seguia desenvolvendo meu repertório e implementando novas ferramentas, como serviços de streaming de dados, novos orquestradores baseados em máquinas de estado, e processamento e categorização massiva de dezenas de milhões de produtos, o que possibilitou a habilitação de novos processos de negócio. Fazendo também mentorias com desenvolvedores juniores, vivi ali o auge da minha carreira até aquele momento.

Isso nunca teve a ver com ser o melhor programador (havia engenheiros tanto ou mais capazes do que eu), mas fui reconhecido por outras habilidades e características, as mesmas descritas no primeiro nível de gestão do post Pipeline da Liderança — O Trajeto ao Nível Tático. Em janeiro de 2023, eu seria promovido a Líder Técnico.

400 dias de paz

Novo papel, novas responsabilidades, novas cobranças. Nesse ponto, as habilidades técnicas serviriam de base para fundamentar novos pilares de habilidades: a gestão de tempo, a execução com excelência e o desenvolvimento do time. A qualidade geral do design e da arquitetura das nossas aplicações melhorou muito, já que passamos a sistematizar todo tipo de métrica e a gamificar dívidas técnicas, trazendo o seu cumprimento para a própria meta trimestral do time.

Infelizmente, por uma conjunção de fatores, ocorreram problemas em certos momentos, trazendo-me uma reflexão muito importante: a presunção e o excesso de confiança podem ser perigosos, mesmo com as melhores intenções, e por isso valem outras atitudes de salvaguarda, como comunicação e compartilhamento de risco, a fim de evitar problemas.

Com esse aprendizado, revisitei alguns times pelos quais já havia passado, continuando a dar minha contribuição; e, junto dos meus colegas líderes (agradeço especialmente ao Vitão e à Lu pelas inúmeras reuniões de alinhamento que fizemos e pelas piadas que virariam chavões e codinomes de projetos), desenvolvemos uma nova metodologia de trabalho para as nossas necessidades, reunindo métricas e evidências que possibilitaram que meu time obtivesse excelentes resultados de resiliência e mantivesse um protocolo de quase zero incidentes por 400 dias seguidos, os "400 dias de paz" que dão nome a este capítulo.

O ano era 2025: a Inteligência Artificial passou a ser cada vez mais presente no nosso dia a dia de trabalho. Agora, apenas enviar prompts para obter respostas ou usar o autocomplete de ferramentas como o Cursor e o Copilot já pareciam datados. Com o apogeu das gerações de modelos 4 da Anthropic e 5 da OpenAI, e seus respectivos coding harnesses, Claude e Codex, os workflows passaram a ser muito mais dinâmicos, contando com dezenas de agentes, skills e plugins trabalhando em paralelo, obtendo dados de diversas fontes para planejar, projetar e codificar novas funcionalidades.

Isso sem mencionar os ganhos que houve em atividades como troubleshooting, automações e experimentos, redesigns, refatorações e muito mais! Sinto que é como se certos gaps de software, postos por falta de cuidado, de conhecimento ou até por alguma justificativa de time-to-market, não fossem mais aceitáveis, já que justamente o polimento estava acessível a todos.

Nesse sentido, o próprio método de trabalho mudou, passando de revisões e checagem para a construção de guardrails e a capacitação voltada à conscientização de melhores práticas do time.

One Fury to Rule Them All

Já estava há mais de 5 anos atuando nos times de logística, e novamente gostaria de tentar um novo desafio, quando, no último quarter de 2025, surgiu um novo acontecimento: inscrevi-me em uma vaga interna para liderar tecnicamente os serviços da plataforma do IDP da companhia. O serviço em questão: um orquestrador de aplicações (mais um!) para desenho de workflows de negócio, transferindo a responsabilidade de certa lógica de integração para o serviço. Fui aceito no processo e obtive todo o apoio da minha liderança para seguir em frente. Mais uma vez, agradeço aos meus colegas pelo suporte, especialmente ao meu líder direto à época, o JP.

À primeira vista no time de plataforma, pensava que havia me mudado para outra empresa: procedimentos diferentes, outro nível de criticidade e de awareness sobre os projetos, além de um histórico de backlog, dívidas técnicas e parafusos para serem ajustados aqui e ali.

Pela primeira vez, eu também estava trabalhando em um time multicultural, com membros em diversos países, como Argentina, Colômbia e Uruguai, o que, nas primeiras semanas, me rendeu um esforço cognitivo ainda maior, já que não era mais apenas o contexto técnico que eu precisava aprender.

No entanto, fui muito bem recebido por todos, pela minha equipe e pelos líderes de equipes irmãs dentro da mesma gerência. E era notável o nível de qualidade e empenho que cada um colocava nessas aplicações, onde o primeiro e último objetivo era servir aos demais: aos milhares de times e desenvolvedores e, potencialmente, a clientes externos que seriam afetados por toda aquela teia de aplicações, bravamente mantida por aquelas pessoas.

Ao fim e ao cabo, esse último ano de carreira foi transformador de diversas maneiras: ensinou-me muito e, agora, ciente dos riscos que as minhas ações e decisões podem causar, ensinou-me também a ser mais prudente.

Um novo começo

Neste mês, deixo a companhia, onde passei os últimos 6 anos e 4 meses, coincidindo com o meu décimo quinto ano de carreira. Saio definitivamente outra pessoa: agora pai, mais velho, mais experiente e mais consciente do meu lugar no mundo. Deixo-a com muita gratidão por tudo que vi, vivi e venci. Também tenho imensa gratidão e respeito por todos os que estiveram comigo neste tempo. São dezenas de pessoas, algumas que saíram durante este período, mas é especialmente a elas que dedico esta parte final.

A partir de agora, a minha jornada toma um novo rumo, não se tratando apenas de um capítulo, e sim de um novo volume. E eu estou preparado, aguardando os próximos 15 anos!

uma nova jornada
Figura 4. Uma nova jornada se inicia.

E este é o encerramento desta trilogia de memórias, o meu primeiro volume. Entre mudanças de cidades, estágios, faculdade, dezenas de tecnologias diferentes e alguns tiros que erraram o alvo antes de acertar, esses quinze anos me trouxeram até aqui. Não sei o que vem a seguir, mas certamente esta história ganhará um novo volume.


Dedico a conclusão desta última parte a todo o time de Inbound Shipping e de Communication Services, pela inspiração, dedicação e companheirismo.

Dedico esta trilogia inteira à minha esposa Victoria e à minha filha Isabel.

Lista de referências

  1. Time: World Health Organization Declares COVID-19 a 'Pandemic.' Here's What That Means
  2. The technological evolution at Mercado Libre: from the monolith to the multicloud platform
  3. Kubernetes at Mercado Libre

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Escrito por Gustavo Aquino, Mestre em Ciências, Engenheiro de Software e fundador da Decodifique.com. Você pode me encontrar no LinkedIn.

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