Meu Midpoint de Carreira, Parte I

21-09-2026 – Por Gustavo Aquino · 10 min de leitura

#carreira

Em setembro de 2026, completei 15 anos de carreira em Tecnologia da Informação, as minhas Bodas de Cristal. Foi tempo suficiente para acumular histórias e experiências entre o mercado de trabalho e a vida acadêmica. Resolvi revisitar essas memórias e registrar aprendizados e histórias curiosas, preservando os envolvidos tanto quanto possível.

bodas 15 anos
Figura 1. 15 anos de carreira, as minhas Bodas de Cristal.

Daria para abrir com um prefácio sobre o período anterior ao meu primeiro emprego formal, o Curso Técnico de Informática e as primeiras experiências com computadores, mas esse capítulo fica para o futuro.

Esta história terá três partes principais, marcos que considero importantes de vários anos cada, com um período de filler entre elas: histórias menores, mas não menos interessantes de relembrar.

Como não podia ser diferente, começaremos com o chamado para a aventura.

Estagiários, pastéis de vento e cemitérios

Em junho de 2011, aprovado no Programa Universidade para Todos (PROUNI) e com uma bolsa de estudos garantida em São Paulo para cursar Sistemas de Informação, tomei a minha primeira grande decisão: deixar a casa dos meus pais, no interior, para viver na capital, aos 17 anos. Eu já cursava o primeiro semestre de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na minha cidade natal, mas nada se compararia à mudança de rotina, escala e desafios que vieram já nos primeiros meses dessa nova vida.

Não bastava estudar. Todo dia eu enfrentava mais de 100 km de locomoção entre ida e volta, do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, até Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Nesses primeiros meses, fui acolhido pela minha tia materna, a Cida, a quem tenho uma imensa gratidão. Ela certamente trabalhava tanto quanto eu e, apesar de rígida, é uma pessoa extremamente protetora.

Esse desafio de deslocamento, somado à rotina da casa, obrigou-me a correr atrás de um trabalho: aproveitar a jornada diária entre casa e faculdade para ganhar algum sustento, conquistar meu próprio espaço e economizar horas de deslocamento.

Procurando no saudoso site APInfo, enviei currículos para vagas de estágio logo no primeiro mês de faculdade. A primeira entrevista, por sorte, rendeu meu primeiro trabalho remunerado, em setembro de 2011: uma consultoria de software de pequeno porte, mas com um grande contrato de um Enterprise Resource Planning (ERP), sistema de gestão empresarial, para uma importadora e varejista de roupas, calçados e acessórios.

Como estagiário, recebi um salário um pouco acima do mínimo da época (R$ 545,00) e uma ajuda de custo, uma espécie de Vale-Refeição (VR) em dinheiro. Para alguém de 17 anos que antes não tinha nada, foi uma grande conquista.

Contudo, a minha produtividade e o foco, especialmente nas disciplinas de cálculo e durante o meu ramp-up na empresa, na qual eu precisava me dedicar muito mais para absorver o conhecimento, se viam afetados devido aos longos deslocamentos: por alguns meses, saía de casa às 5h30 para chegar ao trabalho, na Zona Sul, às 10h, onde ficava até as 17h. Antes da faculdade, fazia uma escala obrigatória numa barraca de pastéis em frente a uma igreja: um simpático pastel com alguma memória de recheio, por uns R$ 4,00, sempre reforçado por snacks de amido sabor goiaba na mochila. Seguia então para a faculdade, na Zona Leste. No caminho de volta, a integração para a Linha 4 já estava fechada, então pegava o ônibus em frente ao Cemitério da Consolação e descia a pé toda a Cardeal Arcoverde, entre bares suspeitos e estabelecimentos infames, até o Largo da Batata, onde embarcava num dos dois últimos intermunicipais, às 23h45 ou 00h10. Chegava em casa, deitava-me e, poucas horas depois, recomeçava tudo.

Maior que o soldo, porém, foi o aprendizado naquele ambiente de consultoria, onde todos os desenvolvedores faziam de tudo um pouco: criavam features, encontravam e corrigiam problemas, mexiam em bancos de dados e infraestrutura, convivendo com gente da mesma faixa etária e muita disposição para apagar incêndios. A complexidade de negócio envolvia todas as áreas de uma empresa de médio porte: estoque, logística, fiscal, tabelas de preços, vendas, Pontos de Venda (PDVs) e contabilidade.

Windev, o Rapid Application Development francês

A tecnologia usada por nós na época, o Windev, já parecia um pouco datado: um ambiente de desenvolvimento rápido de aplicações, o chamado Rapid Application Development (RAD), no qual desenvolvíamos o ERP e as aplicações Point of Sale (PoS), os sistemas de ponto de venda. A ferramenta abstraía os frameworks mais populares da época, Java e .NET Framework, com um framework privado: IDE própria, linguagem própria e banco de dados próprio, embora contasse com conectores para outros provedores. No nosso caso, usávamos o Microsoft SQL Server como Sistema Gerenciador de Banco de Dados (SGBD).

windev home
Figura 2. Interface da IDE Windev.

O Windev é uma IDE criada por uma empresa francesa, a PCSoft, com ambiente integrado para desenvolvimento de aplicações desktop, web e mobile: linguagem proprietária, a WLanguage, banco de dados próprio, o HyperfileSQL (HFSQL), e interoperabilidade com outras linguagens e bancos de dados via APIs e drivers.

Algumas peculiaridades vêm da própria escolha de design da IDE, de gosto bastante particular, e da linguagem própria, fruto da época: uma linguagem de quarta geração (Fourth-Generation Language, 4GL). A proposta era acelerar o desenvolvimento gerando artefatos automaticamente após a integração de um banco de dados ao projeto: os metadados viravam um modelo abstrato chamado Analysis, parecido com o Entity Data Model do .NET Framework, e, a partir dele, relatórios e telas saíam com poucos cliques, algo como o Crystal Reports, da SAP, ou o ADF, da Oracle, para interfaces ricas.

Na prática, isso significava que eu não precisava entender profundamente banco de dados para entregar uma tela funcionando, o que, olhando pra trás, foi bom e ruim ao mesmo tempo.

A linguagem também oferecia fetch de dados automático: bastava iterar coleções com bindings para o modelo de dados, e o metamodelo cuidava de traduzir tudo em queries no banco, fosse o HFSQL ou outro compatível, via conectores OLE DB/ODBC.

Um exemplo simples: uma busca por cliente pelo nome, seguida de uma iteração sobre a coleção resultante, sem escrever uma linha de SQL.

// Buscar primeiro cliente com nome "João"
HReadSeek(Customers, Name, "João")

IF NOT HFound(Customers) THEN
    Info("Cliente não encontrado")
    RETURN
END

// Iterar sobre todos os registros encontrados
FOR EACH Customers
    sName = Customers.Name
    sEmail = Customers.Email
    nID = Customers.CustomerID
    Info(nID + " - " + sName + " (" + sEmail + ")")
END

Evidentemente, isso gerava problemas de desempenho e comportamentos ocultos no banco, já que esse tipo de abstração prioriza o best-effort mesmo à custa do mau uso de índices e queries pouco otimizadas. O resultado eram situações caóticas em cenários de escala, ou onde havia restrições de desempenho, como em aplicações user-facing nos terminais de venda. Nesses casos, recorríamos frequentemente ao uso de Stored Procedures escritas em Transact-SQL para executar operações mais custosas, como calcular fluxos de caixa, reprocessar estoques ou tabelas de preços, e gerar relatórios de vendedores.

Nesse período, o software que entregávamos tinha um caráter bem artesanal: especificações e relatos de bugs colhidos de corredor, por telefone, ou em intermináveis threads de e-mail. Isso nos obrigou a criar e manter, também in-company, um service desk para reunir issues e relatos de problemas. Eu, que sempre tive uma veia criativa, abracei o suporte desse sistema para evoluí-lo, criando funcionalidades, relatórios e dashboards e melhorando o nosso dia a dia de trabalho.

Embora o Git já existisse desde 2005, minha experiência com gestão de código-fonte ainda era bem rudimentar: pastas compartilhadas na rede, sem versionamento, e depois um sistema centralizado de versionamento de código (CVS, Concurrent Versions System) da própria fornecedora do Windev, que mais de uma vez corrompeu o histórico dos arquivos e nos obrigou a recorrer a backups físicos. Os deployments seguiam a mesma lógica artesanal: builds comprimidos, transferidos por FTP, com configurações de acesso em texto plano em arquivos .ini. Foi nossa realidade por anos.

PHP raiz e outros projetos

Além do ERP e seu sistema de PoS, a consultoria também trabalhava com projetos menores, como e-commerces e sistemas de gestão hoteleira. Nesses casos, havia mais flexibilidade de tecnologias, e chegamos a usar o PHP e o MySQL no pacote LAMP (Linux-Apache-MySQL-PHP), já nos seus últimos suspiros no mercado, que seguia migrando para o pacote Node.js e nginx, embora a gente continuasse nele.

Naquele momento, o conhecimento de frameworks no mundo PHP era totalmente experimental, ao menos para mim. Lembro de estudar o CodeIgniter no livro do Ademir Gabardo e usá-lo no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), onde também tive contato com a cultura maker, usando Arduino e Raspberry Pi para prototipar um hidrômetro inteligente, projeto que genuinamente alcançou a nota máxima de avaliação. Profissionalmente, porém, o PHP que eu usava era o raiz dos anos 2000: arquivos .php com blocos de script misturados ao HTML, dividindo espaço com plugins icônicos da época, como o jQuery, para controle do DOM, validações client-side e animações, o morris.js e o chart.js, para gráficos estilizados. O Bootstrap ainda estava em suas primeiras versões, incluído nos meus projetos pouco a pouco.

livro php codeigniter
Figura 3. Livro PHP e MVC (Model-View-Controller) com CodeIgniter, meu primeiro framework web.

Estudando por conta própria: o mundo .NET

Passados alguns meses, fui efetivado como Analista Programador Júnior e, com um salário maior, mudei-me para uma kitnet perto de uma estação de metrô na Zona Oeste. A qualidade de vida melhorou na hora: finalmente eu dormia noites inteiras.

Apenas trabalhar com Windev e PHP raiz não me satisfazia. Em conversas com o meu grande amigo, o Mark, para mim uma lenda da programação (especialmente, mas não só, em Java), sempre antenado nas melhores práticas de engenharia, que me ensinou arquitetura de software antes mesmo de eu conhecer o termo, percebi que ficar só nas tarefas do dia a dia estaria afastando-me dos benchmarks do mercado. Comecei então a estudar .NET por conta própria, já entrando em C# e ASP.NET MVC pelos calhamaços da série Step-by-Step, do saudoso John Sharp, e por livros da também saudosa editora Casa do Código, como o fabuloso livro de TDD (Test-Driven Development) do Maurício Aniche, além de alguns livros de Windows Phone, já que eu era um early adopter e entusiasta da linha Nokia Lumia 💀. Ainda era cedo, mas essa inquietude em estudar além da rotina viraria a base do repertório que eu construiria dali em diante.

livro visual csharp 2008
Figura 4. Livro Visual C# 2008, do John Sharp — um calhamaço.

Hora de seguir em frente

Quando percebi, três anos tinham passado e eu já era Analista Programador Pleno. Foram muitos deployments de novas versões do ERP, otimizações no fluxo de caixa de grupos de marcas, aberturas de novas lojas, funcionalidades criadas e eventualmente recriadas para cadastros diversos, integrações com impressoras térmicas, e até a montagem de estandes de eventos no Anhembi. Eu tinha feito grandes amigos nessa jornada e já estava prestes a concluir a graduação, no último semestre.

Foi então que veio a vontade de buscar mudanças: sair da zona de conforto e voltar a me arriscar em busca de novos desafios. Sem muita cerimônia, voltei a sondar o mercado e, em maio de 2015, recebi uma proposta que, naquele momento, me pareceu uma promessa de novos ares. Então era chegada a hora de despedir-me, nesta empresa, dos amigos que me acolheram e tanto me ensinaram nessa fase inicial da jornada (anos mais tarde eu retornaria para um novo e duradouro projeto).

Dali segui para uma nova consultoria de software, mas, dessa vez, em um projeto totalmente diferente, agora na Polícia Tecnocientífica. Já formado na faculdade, foi aí que eu conheci a dupla jornada de trabalho, mas isso ficará para a próxima parte.


Dedico a conclusão desta parte a todos que, naquele momento, participaram da minha jornada: ao Mark, à , aos irmãos Diego e Thiago, ao Marcão, ao Luiz XV, ao Adrian 2, ao Abel, ao Dengo, e a tantos outros.


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Escrito por Gustavo Aquino, Mestre em Ciências, Engenheiro de Software e fundador da Decodifique.com. Você pode me encontrar no LinkedIn.

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