Meu Midpoint de Carreira, Parte II

28-09-2026 – Por Gustavo Aquino · 11 min de leitura

#carreira

Prólogo: Peritos e corsários

No meu último ano de faculdade, conversando com uma colega de classe, ela me contou que estivera trabalhando em uma startup de tecnologia de segurança biométrica, e que estavam à procura de um programador .NET para desenvolver softwares usando essa tecnologia em totens de atendimento, autenticação de sistemas web e aplicativos mobile.

A essa altura, eu já estava trabalhando na Polícia Tecnocientífica de São Paulo como programador web, em um sistema de GED (Gerenciamento Eletrônico de Documentos) construído em CakePHP e MongoDB, porém já um pouco em dúvida se teria vida longa ali. Explico: eu havia saído de uma consultoria que detinha um framework interno para agora trabalhar com uma tecnologia também não tão atrativa para o mercado, como o PHP.

Como o escritório na Faria Lima era próximo ao da Superintendência, negociei com o gestor da empresa de biometria trabalhar part-time, no período da tarde/noite, conciliando assim com a Superintendência pela manhã e início da tarde.

Minha negociação foi positiva, e segui nesse ritmo de dupla jornada por seis meses, até que, certo dia, vivenciei na Superintendência um momento bastante peculiar do setor público: o processo licitatório. O contrato da consultoria de software terceirizada estava vencendo, e um novo pregão seria aberto para escolher quem assumiria o serviço dali em diante. Essa incerteza sobre quem venceria a licitação pairava sobre todos os terceirizados havia semanas, gerando expectativas e receios de toda sorte, sobretudo o medo da falta de continuidade no projeto. Uma nova empresa venceu o pregão que houvera. A vencedora poderia optar ou não pela recontratação dos terceirizados que ali estavam, mas não foi o que ocorreu. Diante disso, a empresa à qual eu estava vinculado me deu duas opções: me enviar para um projeto em Alphaville, em Barueri, ou a minha dispensa. Optei pela segunda.

Enfim, Tio Bill pagando boletos

Uma vez liberado, passei a trabalhar fulltime na startup, no início de 2016, minha primeira experiência também como Pessoa Jurídica. Depois de uma mudança de escritório para a Vila Olímpia, estive no centro do boom das startups e fiz um grande networking com diversas empresas, dos setores farmacêutico, hospitalar, fintech e de outros produtos digitais em ascensão na época, como criptomoedas, brokers de ativos no exterior e toda a sorte de plataformas de sharing economy, à esteira do Uber, à procura de se tornarem unicórnios, com muita injeção de capital de private equity.

Empresas unicórnio "são start-ups (empresas iniciantes com um modelo de negócios repetível e escalável por meio da tecnologia) que atingiram um valor de mercado de US$ 1 bilhão – pelo menos" [1].

Nesse período, também comecei um MBA (Master of Business Administration) de Engenharia de Software na Universidade de São Paulo, na Escola Politécnica, mas não entrarei em maiores detalhes para não criar um enorme parênteses neste prólogo, apenas vale mencionar que o objetivo do MBA era obter o título de pós-graduação lato sensu.

Durante meu tempo na startup, deparei-me com desafios muito mais interessantes que os anteriores: passei a adotar de fato o uso de Git no meu workflow de trabalho e pude finalmente trabalhar com toda e apenas a stack Microsoft .NET: Windows Forms, à época nas versões 4.6.x, C#, APIs REST (Application Programming Interfaces / Representational State Transfer) em ASP.NET MVC Web API, e WPF (Windows Presentation Foundation). Vamos por partes:

wpf designer visual studio
Figura 1. O designer visual do WPF no Visual Studio, com o XAML da MainWindow à esquerda e a pré-visualização da interface à direita.

  • .NET Framework: framework de desenvolvimento da Microsoft, exclusivo para Windows, base para as tecnologias abaixo.
  • Windows Forms: framework para construção de interfaces gráficas para aplicações Windows, estilo drag-and-drop.
  • C#: linguagem de programação orientada a objetos de tipagem forte desenvolvida pela Microsoft.
  • ASP.NET MVC: framework web para construção de páginas web através da sintaxe de marcação Razor; APIs SOAP (Simple Object Access Protocol), com a extensão WCF (Windows Communication Foundation), ou REST, com a extensão Web API.
  • WPF: framework para a construção de interfaces gráficas que viria a substituir o Windows Forms, também com estilo drag-and-drop, mas com uma sintaxe de marcação através da linguagem XAML (Extensible Application Markup Language), baseada em XML.

net framework 45
Figura 2. A evolução do .NET Framework: cada versão foi empilhando novas bibliotecas sobre o Common Language Runtime.

Foi exatamente aí que eu me encontrei, trabalhando com as ferramentas nas quais eu tinha muito interesse, em um período de intenso aprendizado em tecnologia, tanto por trabalhar com o que gostava quanto por estar em um ambiente onde, com praticamente nenhuma equipe, havia apenas eu como programador backend e um colega responsável pelo desenvolvimento de aplicações Android. Eu tinha total liberdade criativa para decidir como aplicar técnicas de engenharia novas para mim, como testes automatizados (unitários, de stress e integrados) e princípios de design, como o SOLID e projetos com separação em camadas. Também foi nesses anos que passei a ter contato com uma maior riqueza de leituras, como a série The Pragmatic Programmer, de Andy Hunt e Dave Thomas, e os livros de Robert C. Martin, The Clean Coder e Clean Code. Também foi nesse período que participei de muitos eventos de tecnologia, como o TDC (The Developers Conference) e diversos meetups.

Passados alguns meses, após enfrentar certos obstáculos pessoais, em comum acordo com a gestão da empresa, optamos pelo rompimento do contrato de prestação de serviços que eu fornecia, e voltei mais uma vez a sondar o mercado 🌼. Com uma bagagem e experiência consideravelmente maiores, agora com fluência na stack Microsoft, rapidamente me realoquei, agora em uma consultoria cuja área principal de atuação era o setor de seguros, e então fui alocado para um de seus maiores clientes.

Orquestrando a sopa de letrinhas

A mudança, a partir do segundo semestre de 2016, foi grande: saindo do mundo das startups para a minha primeira experiência no mundo corporativo, com burocracia, processos, integrações de sistemas com décadas de existência, dezenas de equipes só na TI, e tecnologia restrita a um seleto grupo de empresas, com conhecimento igualmente secreto, como uma seita. Embora eu tivesse desenvolvido o conhecimento técnico da experiência anterior, a falta de equipe me deixou débil em habilidades políticas e de trabalho em time. Agora eu teria que trabalhar com desenvolvedores muito mais experientes do que eu e com conhecimento já consolidado na área de negócios, especialmente no que dizia respeito a regras de sinistros.

Por ter um bom domínio em .NET e aprender rápido, fui escolhido para participar de um projeto de grande visibilidade na companhia: a implantação da plataforma Oracle SOA Suite (Service-Oriented Architecture), gerenciando e orquestrando as integrações entre os diversos módulos de sinistros, e a criação de uma interface de workflows para que os analistas e a cadeia de aprovações pudessem analisar, avaliar e deferir sobre processos de sinistros e indenizações.

Esse foi um projeto bastante complexo, já que envolvia migrar regras de negócio de um sistema in-company monolítico, parte construído em VB.NET, parte em ASP (Active Server Pages, que eu já achava que não veria de novo, coisa do final dos anos 90), para os componentes da plataforma Java J2EE (Java 2 Platform, Enterprise Edition), como servlets e EJB (Enterprise JavaBeans), e para o próprio middleware: as interfaces ADF (Application Development Framework) para as Human Tasks (uma versão Oracle para as JSF, JavaServer Faces), os Mediators, para roteamento, filtragem e transformação de dados entre diferentes componentes, os BPEL (Business Process Execution Language) e BPMN (Business Process Model and Notation) para a orquestração de serviços e tarefas, e as Business Rules, para a elaboração de um conjunto de regras executadas em runtime, separadamente do código da aplicação. Isso sem falar da integração com sistemas legados via SOAP (Simple Object Access Protocol), o WCF de novo, e toda a sua especificação em XML: XSD, XSLT e XPath. Confesso: é uma salada de letras e termos. Mas vai além: tudo isso interconectado a bancos de dados on-premises Oracle 11c ou 12c e versionado parte em SVN (Apache Subversion) e parte em Microsoft TFS (Team Foundation Server), ambos modelos centralizados de versionamento de código.

oracle bpel exemplo
Figura 3. Um processo BPEL no Oracle JDeveloper, orquestrando as chamadas entre serviços.

O salto de qualidade

Me saí bem, e o domínio rápido dessa stack enterprise da Oracle me rendeu reconhecimento. Minha situação melhorou: recebi uma proposta de internalização pela companhia, em meados de 2017, deixando de ser terceirizado e passando a gozar de um plano de carreira e melhores benefícios. Aproveitando dessa melhora, chegou o momento de deixar a minha kitnet e alugar meu primeiro apartamento. Também concluí o meu MBA e, quando me pegava refletindo sobre tudo o que havia passado, percebia que, naquele momento, a vida realmente havia dado um grande salto de qualidade.

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Figura 4. Uma das minhas fontes de estudo teórico sobre o ferramental Oracle Suite foi esse pequeno handbook de 900 páginas.

Passei os dois anos seguintes em uma rotina contínua de muito trabalho na seguradora, no meu time de Workflows. Curiosamente, essa habilidade com orquestração de APIs (Application Programming Interfaces) seria de grande valia em projetos futuros. As novas fases do projeto SOA foram expandindo para novas áreas: criei painéis gerenciais e atualizei algumas tecnologias da companhia, a pedido da matriz americana.

Mas o trabalho não bastava. Segui firme na rotina de estudos, lendo sobre Agile, Microsserviços, Enterprise Integration Patterns e outros tópicos de arquitetura de software, até me sentir desafiado a tirar certificações Microsoft. Criei uma rotina baseada nos livros de Exam Ref da própria Microsoft e em materiais complementares da Packtpub. Em um ano e meio, tirei três: a MCP (Microsoft Certified Professional), a MCSA (Microsoft Certified Solutions Associate) e a MCSD (Microsoft Certified Solutions Developer), nas áreas de C#, ASP.NET MVC e Windows Azure.

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Figura 5. Minha badge de Microsoft Certified Solutions Developer obtida em 2019.

Hoje em dia talvez essas badges possuam pouca serventia prática, mas o desafio de estudar e se aprofundar em temas muitas vezes negligenciados é uma forma riquíssima de aprendizado. Sem contar que, pessoalmente, para mim, foi o meu ponto de partida para o consumo de material em língua inglesa. Antes não me lembro de ter tido a experiência de ler e estudar em livros de 500 páginas em outro idioma. Sou grato por ter tido essa decisão.

De volta ao início e novas incertezas

Com todo esse conhecimento em desenvolvimento .NET, cloud Azure e também nas ferramentas de SDLC (Software Development Life Cycle), como o VSTS (Visual Studio Team Services), mais tarde renomeado para Azure DevOps, fui chamado, no início de 2018, pela minha primeira empresa, para prestar uma consultoria externa em uma nova solução que eles estavam desenvolvendo: um sistema de vendas omnichannel, totalmente desenvolvido do zero com tecnologia Microsoft. Aceitei o desafio e os impulsionei na criação da arquitetura dessa nova solução, baseada em microsserviços, já em .NET Core 2.0.

Segui mantendo essas duas frentes de trabalho em paralelo, e em 2019 abri uma nova: iniciei um Mestrado em TI na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), apresentando um projeto de pesquisa de Internet das Coisas aplicada ao Saneamento Básico de São Paulo, pela vontade de, no futuro, ter a oportunidade de lecionar em alguma universidade.

Já estava há 3 anos e alguns meses na seguradora, e sentia uma certa desconexão entre a minha expectativa de carreira e a minha valorização profissional. Decidi que faria naquele momento uma nova mudança e, alguns meses depois, mudaria completamente de contexto mais uma vez, e, quem diria, voltaria a uma empresa de clima de startup, mas agora encarando outra área: a hospitalar. Eu poderia dizer que agora era praticamente um programador sênior, pelo menos na atitude, com muito mais bagagem e exalando confiança nas minhas habilidades técnicas e de tempo como colaborador individual, graças à extensa rotina de trabalho em dois projetos completamente diferentes em tecnologia, escala e desafios.

Eu ainda não sabia, mas mais uma vez o tiro erraria o alvo. E em um momento extremamente delicado, pois o ano era 2020, poucos meses depois do primeiro caso registrado do SARS-CoV-2, na China [2]. Dali em diante, nada mais seria como antes.

Lista de referências

  1. Época Negócios: Inovação não é bagunça! A incrível trajetória dos 10 primeiros unicórnios brasileiros
  2. CNN: 5 anos da Covid-19: lembre o histórico desde 1º caso até fim da emergência

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Escrito por Gustavo Aquino, Mestre em Ciências, Engenheiro de Software e fundador da Decodifique.com. Você pode me encontrar no LinkedIn.

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